As consequências da falta de um plano de inovação para o Brasil

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Bruno Lanvin, da Insead: quanto mais o país demorar para implementar suas políticas de inovação, pior serão os efeitos no longo prazo

À medida em que discute-se a forma como viveremos em meio à uma pandemia que continua a ceifar milhões de vidas, fala-se também em um grande “reset” trazido pela Covid-19, uma nova ordem mundial pautada por avanços tecnológicos onde países competem entre si, em agendas como inteligência artificial. Imerso em questões de curto prazo, o Brasil avança mais lentamente do que outras nações, e corre o risco de ser atropelado por outras economias mais incisivas em suas estratégias de inovação.

Assim como empresas, países tinham níveis diferentes de maturidade em relação à inovação tecnológica antes do início da pandemia. Muitos nunca conseguiram se reerguer de fato depois da crise do subprime de 2008 e a emergência de saúde pública atual só aumentou a fragilidade de países que estavam em processo de recuperação, ou ainda ensaiavam uma retomada.

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Em 2020, no entanto, a palavra de ordem para o setor privado é inovação e isso também se aplica à países. Medidas emergenciais podem ter sido tomadas para combater os efeitos imediatos da pandemia, mas a sobrevivência de nações no longo prazo depende de produtividade, e isso significa que a inovação precisa ser promovida.

No entanto, é preciso que políticas sejam definidas e regiões, bem como segmentos da população, não sejam deixadas para trás. No Brasil, a Política Nacional de Inovação, que engloba uma estratégia para o país, ainda está em construção. O plano inclui os eixos de fomento à inovação; cultura de inovação e visão empreendedora; bases de conhecimento tecnológico; mercados para produtos e serviços inovadores; qualificação profissional por meio da formação tecnológica e proteção do conhecimento adquirido pela inovação.

Este conjunto de considerações é explorado no Global Innovation Index (GII), ranking anual elaborado pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, e as escolas de negócios da Cornell University e Insead. O ranking foi publicado na semana passada, mostrando a evolução ou atraso de países em relação à suas políticas de inovação.

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No que diz respeito ao Brasil, as entrevistas com os autores do relatório nos últimos anos tem focado nos problemas, no potencial, e fala-se de alguns avanços. Na edição deste ano, temos falado mais de avanços do que o usual. O Brasil viu sua primeira grande melhora no GII desde 2018, quando esteve na 64ª posição. No ano passado, despencamos para o 66º lugar da lista e, neste ano, o país ocupa a 62ª posição.

Ainda estamos bem atrás de outros países do grupo dos BRIC, como a China, que está em 14º lugar, e a Índia, que subiu quatro posições no ranking e entrou na lista dos Top 50. E estamos bem distantes do líder, a Suíça, ou a França, que está em 12º lugar e tem atraído muita atenção por suas políticas de estímulo à inovação tecnológica.

O GII nota avanços no Brasil no último ano em pilares como educação, bem como investimento em pesquisa e desenvolvimento. Por outro lado, o relatório ressalta que ainda é difícil começar um negócio por aqui, o acesso a crédito para empreendedores é difícil, a infraestrutura de telecomunicações é insuficiente.

CONCLUSÕES

A conversa da Forbes Insider com Bruno Lanvin, professor da Insead responsável pelo GII teve a seguinte conclusão: o Brasil ainda não consegue colher as recompensas dos esforços que levaram a uma classificação melhor no ranking. Segundo o especialista, o país ainda corre o risco de retroceder em relação aos resultados obtidos até agora, por razões que incluem a demora na criação e implementação de um plano para o longo prazo.

“É importante lembrar que haverá novas ondas [do novo coronavírus] e os países estarão mais preparados para lidar com isso, mas investir em inovação é estar pronto para a grande crise, que ainda está por vir”, ressalta.

Para fazer a inovação no Brasil avançar, é preciso resolver as lacunas apontadas no estudo, mas existem outras questões em jogo, segundo Lanvin: “Existem preocupações relacionadas à abertura do Brasil, se o governo vai escolher políticas voltadas à criação e desenvolvimento de talentos, se haverá investimento nessas frentes. É improvável que isso aconteça.”

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Considerações sobre a pandemia ficarão para a próxima edição do GII, mas Lanvin acredita que a forma em que a crise de saúde pública está sendo administrada no Brasil – terceiro país no mundo com o maior número de casos de Covid-19 – deve impactar o investimento da iniciativa privada em inovação no país.

“Mesmo se [investimento e compromisso do governo brasileiro com inovação] fosse o caso, será que as pessoas estariam dispostas a investir ou viajar para o Brasil? Pode levar um tempo para que o clima de negócios que existia há alguns anos atrás seja restaurado,” adverte.

Segundo o acadêmico, o avanço ou atraso na inovação em diversos países também precisa considerar um movimento em direção a um novo tipo de globalização, algo presente no discurso de líderes brasileiros do setor de tecnologia, como Laércio Cosentino, da Totvs.

O movimento de comércio, investimento e talento eram encorajados no modelo de globalização anterior, ao passo que na era pós-Covid, há uma tendência – muitas vezes chamada de “resiliência” – em direção ao protecionismo, e uma redução de dependência em fornecedores externos. No começo da crise, usou-se muito o caso da falta de insumos da China, como componentes para celulares e equipamentos de proteção individual para ilustrar o tipo de situação que, segundo as vozes desta nova ideologia, é indesejável.

É preciso refletir se esta não é uma forma superficial de desenhar o futuro, diz Lanvin, que convida a pensar se esta nova forma de pensar condiz com o tipo de globalização que queremos, já que o mundo até aqui foi organizado de acordo com a noção de interdependência internacional, e menos fluidez nas relações internacionais é algo particularmente danoso para economias como o Brasil.

DESCENTRALIZAÇÃO DA PROSPERIDADE

O modelo defendido por especialistas como Lanvin afirma que países devem desenvolver meios proativos de fomentar a inovação, de forma a gerar benefícios a toda a sociedade. Esta abordagem de manter – e aumentar – investimentos em inovação, mesmo em um cenário de orçamento público apertado, oferece a oportunidade de decentralizar a concentração de prosperidade em certas áreas do país. Tal abordagem também possibilita endereçar a desigualdade e problemas históricos, como a exclusão de negros e pobres da revolução digital, atualmente em curso.

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No momento de crise atual, esta decisão está embutida em pacotes de recuperação anunciados por países, em que se detalha o que será feito para atravessar a pandemia e lidar com os efeitos que virão depois. Segundo o especialista da Insead, estes pacotes tendem a focar nos pilares de meio ambiente, digitalização e inovação, além de endereçar as urgências derivadas da crise, como apoio às pequenas e médias empresas e o desemprego. Mas estas medidas não podem tardar a serem anunciadas e implementadas, segundo Lanvin.

“Quanto mais governos demorarem para anunciar pacotes de recuperação, maior será a pressão no longo prazo. A demora para fazer isso significa que, nos bastidores, há um lobby intenso de diversos setores para que seus necessidades sejam endereçadas. Isso também está acontecendo no Brasil”, ressalta Lanvin.

Além disso, uma das lições aprendidas pela equipe que tem elaborado o GII nos últimos 14 anos é que não basta anunciar um plano econômico para um país com elementos significativos de inovação – segundo Lanvin, é preciso dar continuidade aos planos, independente do governo que esteja no poder. Não é preciso ir longe para encontrar exemplos de como isso pode funcionar: este modelo de governança é visto em ecossistemas como o Porto Digital, em que a academia, indústria e poder público trabalham em prol de objetivos que beneficiam a sociedade através de inovação.

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Enquanto o governo federal ainda não expressa claramente suas intenções de inovação para esta nova ordem mundial, as mudanças no Brasil devem continuar a acontecer na prática, mas orquestrada por outros atores.

“Associações de indústrias, de startups, bancos que assumem mais riscos, além de governos de estado e municipais terão um papel importante a desempenhar nos próximos anos, pois oferecem um contraponto a outras tendências que podem levar à inércia, demora ou mesmo negação de que os problemas existem. A atuação destes atores será crucial em antecipar a próxima crise e se preparar para ela, com uma abordagem de longo prazo.”

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